Cerca de 40 viaturas, na sua maioria tratores, realizaram esta manhã uma marcha lenta na Estrada Nacional 260 (EN260), no concelho de Serpa, em protesto contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, bem como contra a reforma da Política Agrícola Comum (PAC).
A iniciativa foi organizada pela Associação de Produtores do Concelho de Serpa (APROSERPA) e teve início por volta das 08:00, com uma concentração em Vila Nova de São Bento, no distrito de Beja. Os participantes foram chegando gradualmente em tratores, carrinhas e outras viaturas, muitas das quais exibiam bandeiras de Portugal. Pouco depois das 09:00, a coluna arrancou, com acompanhamento da Guarda Nacional Republicana (GNR), que assegurou a abertura e o fecho do cortejo.
Ao longo do percurso, marcado por buzinas e mensagens de protesto, os agricultores dirigiram-se à Ponte sobre o Rio Guadiana, terminando a iniciativa no Parque de Feiras e Exposições de Serpa.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da APROSERPA, João Revez, afirmou que o protesto visa demonstrar o desagrado dos produtores face ao acordo UE–Mercosul, que considera prejudicial para a agricultura extensiva e de sequeiro da região.
“Saímos à rua como muitos agricultores europeus, essencialmente contra um acordo que acreditamos ser negativo para o nosso setor, sobretudo para a agricultura extensiva no Alentejo”, afirmou.
Segundo o dirigente, o tratado poderá gerar uma situação de concorrência desleal, ao permitir a entrada no mercado europeu de produtos que não cumprem as mesmas exigências sanitárias, ambientais e laborais impostas aos produtores da UE.
“Não acredito que a União Europeia consiga garantir que cada carregamento de carne ou cereais importados cumpra as mesmas regras que nós somos obrigados a cumprir. Isso cria uma competição injusta”, criticou.
Outro representante da APROSERPA, António Morgado, agricultor e criador de gado bovino e ovino na região de Sobral da Adiça, no concelho de Moura, sublinhou que o acordo representa uma ameaça direta aos produtores pecuários extensivos.
“Na prática, o que a reforma da PAC e este acordo significam é o fim da agricultura e da pecuária extensiva. Não conseguiremos competir com preços que consideramos desleais”, alertou.
A associação já havia manifestado a sua oposição ao acordo num comunicado divulgado a 19 de janeiro, após a assinatura do tratado entre a UE e o Mercosul, apelando aos eurodeputados portugueses para votarem contra a sua ratificação.
O acordo ainda não entrou em vigor, depois de o Parlamento Europeu o ter remetido ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) para avaliar a sua conformidade com os tratados comunitários. Ainda assim, João Revez criticou o presidente do Conselho Europeu, António Costa, por ter admitido a possibilidade de aplicação provisória do tratado antes da decisão judicial.
“Discordamos da ideia de que o acordo possa entrar em vigor antes de uma decisão do tribunal europeu”, afirmou.
Os dirigentes da APROSERPA criticaram também a posição da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e da CONFAGRI, alegando falta de representação e de mobilização em defesa dos interesses dos produtores.
“Não nos sentimos devidamente defendidos. Há setores que irão sofrer e, na nossa região, a agricultura extensiva e de sequeiro corre o risco de desaparecer”, concluíram.
